Um meio criado para libertar nossa imaginação do visual agora encontra no vídeo a sua nova fronteira. Os podcasts, nascidos como símbolo da cultura do áudio puro, atravessam hoje uma mutação, transformando-se em experiências híbridas que misturam voz, imagem, expressão corporal e linguagem multimodal.
De acordo com pesquisa da Edison Research, mais da metade dos entrevistados considera que até mesmo conteúdo exclusivo do YouTube em vídeo pode ser chamado de podcast. A definição, que antes girava em torno do RSS feed de áudio, agora expande-se para abranger formatos visuais. O que antes era uma mídia de nicho virou mainstream, e sua gramática está sendo completamente reescrita.
Raízes: dos feeds RSS ao mainstream global
A história começa em 2001 com a criação dos RSS audio feeds, permitindo que usuários assinassem programas e recebessem automaticamente novos episódios. O termo “podcast” só seria cunhado em 2004. Um ano depois, Steve Jobs anunciou a chegada dos podcasts ao iTunes, declarando que a Apple estava “levando o podcasting ao mainstream”.
O verdadeiro ponto de virada, no entanto, ocorreu em 2014 com o lançamento de Serial, um podcast narrativo que conquistou milhões de ouvintes e provou que o áudio tinha força dramática para competir com a TV. Serial foi mais que entretenimento: foi prova de conceito.
Em 2021, a receita publicitária do setor já ultrapassava US$ 1 bilhão, consolidando o podcast como mídia estratégica. Mas, ironicamente, no auge do áudio puro começou também a migração em direção ao visual.
O ponto de virada veio com plataformas como Spotify e YouTube. Emma Vaughn, diretora global do Spotify, resume bem a demanda do público:
“O que o consumidor quer é flexibilidade entre o primeiro plano e o segundo plano. Se está escutando e de repente quer ver a expressão no rosto do entrevistado, basta virar o telefone”.
Essa lógica cria um novo tipo de consumo fluido: ouvimos quando precisamos de praticidade, assistimos quando buscamos conexão, emoção e interpretação visual. O podcast deixa de ser apenas “som” e passa a ser experiência multimídia.
O YouTube como casa dos podcasts
Para Adam Sachs, VP de conteúdo do SiriusXM:
“O YouTube é a plataforma mais assistida do mundo. Colocar seu podcast lá dá a chance de ser servido para muito mais pessoas”.
Essa massificação transforma também a identidade dos criadores. Como define Tim Katz, VP de parcerias do YouTube:
“Estamos neste lugar mágico onde fazemos podcasters se tornarem mais como YouTubers — e YouTubers se tornarem mais como podcasters”.
Ou seja: a barreira entre podcasting e vídeo digital nunca foi tão tênue. Se por um lado a hibridização expande a audiência, por outro ela fragmenta a mensuração.
- Áudio tradicional: métricas via downloads e players RSS.
- Streaming (Spotify, Apple): baseadas em streams e pixels de atribuição.
- Vídeo (YouTube): views, watch time, CTR.
O resultado? Um quebra-cabeça. Cada ponto de distribuição requer sua própria metodologia. Há toda uma nova camada de fragmentação que torna o trabalho mais difícil para todos. Essa complexidade, porém, também abre espaço para novos formatos publicitários. A FlightStory, por exemplo, já aponta que anúncios visuais integrados são os mais eficientes para podcasts video-first.
O movimento, no entanto, não é unânime. Pioneiros como Marc Maron defendem que o componente visual pode prejudicar a autenticidade da conversa, tornando-a mais roteirizada.
Já para Greg Glenday, CEO da Acast, o equilíbrio é questão de contexto:
“Depende do show. Se precisa de gráficos ou destaques visuais, ótimo. Mas nem todo formato pede isso.”
Em especial no segmento de negócios, muitos argumentam que o áudio puro mantém uma intimidade e profundidade que o vídeo não necessariamente amplia.
Uma das grandes perguntas da indústria: o RSS feed está morrendo?
A resposta majoritária é de coexistência. O áudio não desaparece, mas se expande. O vídeo é aditivo, não substitutivo. O Spotify reforça isso ao incentivar criadores a mesclarem formatos, mas ainda acolher os puramente auditivos.
Bryan Barletta, da Sounds Profitable, sintetiza a questão:
“Alguns aspectos de atenção precisam de visuais. Mas o áudio segue insubstituível na intimidade de contextos como academia, trânsito e multitarefa.”
Implicações estratégicas
Para criadores:
- Adaptabilidade é tudo: transitar entre áudio e vídeo será diferencial competitivo.
- Qualidade sobre quantidade: vídeo só agrega quando melhora a narrativa.
- Distribuição híbrida: RSS, Spotify, YouTube e emergentes devem conviver em portfólio.
Para marcas:
- Medição integrada: urge criar sistemas que triangulem métricas entre áudio, vídeo e streaming.
- Formatos nativos: entender especificidades de cada plataforma antes de anunciar.
- Narrativa flexível: storytelling que funcione tanto com fones quanto na tela.
A indústria:
- Padronização urgente: métricas cross-platform são necessidade crítica.
- Infraestrutura técnica: tecnologia de mensuração será vantagem competitiva.
- Educação de mercado: anunciantes e criadores precisam de formação específica.
O futuro não é áudio versus vídeo. É sensorial: experiências capazes de ativar diferentes sentidos conforme o contexto. A escuta seguirá essencial, mas o olhar ganhou espaço definitivo.
A pergunta que fica é: como criadores, marcas e indústrias irão se posicionar diante dessa convergência? Os video podcasts já não são futuro, isso porque, são o presente, e quem não compreender essa mudança ficará preso a um modelo que o público já superou.