Texto do autor Ricardo Poli para a Bring me More, coluna especial do BRING ME DATA, que traz a visão de grandes nomes do mercado.
Nike/Divulgação. Postada na Veja
Em 13/06 do ano passado, esse escrevinhador “sabor colunista” elaborou um artigo que tinha como tema central a possibilidade de uma das camisas da seleção brasileira de futebol ser ou não ser da cor vermelha. As meninas da MACFOR sempre gostam de provocar esse professor com temas hypantes ligados a essa prática esportiva. Sendo assim, estamos aqui de volta para falar daquilo que já foi dito e um pouco mais.
O hype agora não é mais a seleção da cor da camisa da seleção canarinha, mas tem novamente o marketing como o centro de toda polêmica. Depois de dez meses do primeiro hype, pode-se chegar à conclusão de que se tratava quase de uma fake news, visto que envolvia o vazamento de informação (e imagem) de algo que estava em possibilidade de teste. Mais uma vez, os comentaristas de internet especializados em qualquer assunto se lambuzaram com análises de algo que nunca viria acontecer.
À época, essa coluna tentou oferecer alguma sensatez à questão. O resultado não foi “nenhuma Brastemp”, mas levantou alguns pontos que não podem ser esquecidos.
Vale lembrar que a seleção é brasileira, mas não é do Brasil, visto que pertence a uma entidade privada regulamentada por outra entidade privada em nível superior. O faturamento de tal entidade tem origem em inúmeras fontes, sendo uma delas a do patrocinador de seus uniformes. Mais do que óbvio, não é difícil pressupor que exista um contrato bem elaborado que rege a relação comercial entre essas partes. Reforço, a seleção não é do Brasil. “Parece, mas não é”.
Em vista disso, se o uniforme do referido time vai ser “assim ou assado”, isso será definido principalmente por seu fabricante, em sintonia com a entidade que o representa. Sob o ponto de vista desse fabricante, a seleção é um produto, seu uniforme é a embalagem e os signos verbais e não-verbais, ligados a ambos, seu processo de comunicação. E é daí que se origina a nova polêmica hypante.
De chofre, segundo os notórios comentadores da internet, o novo slogan “vai, brasa!” não “desceu redondo” para o grande público (seja lá o que isso signifique), bem como o filme promocional atrelado a ele. O que mais chama a atenção é o tom de certeza, mais do que absoluta, de algumas afirmações veiculadas, todas dizendo que ninguém gostou do novo posicionamento de comunicação adotado pelo fabricante de artigos esportivos em relação à seleção, principalmente no que tange a seu slogan.
Ninguém quem, cara-pálida? Por algum acaso do destino, foi elaborada (e executada) uma pesquisa de mercado com embasamento científico que garantiu que a nova campanha, assim como o referido slogan, não caiu no gosto popular? Se sim, qual? O engano está em achar que quem está presente nas redes sociais, e opina a respeito disso, representa todas as pessoas desse país.
Volto a recordar que o Brasil não é o país do futebol. Se qualquer acidental leitor dessa coluna pesquisar, seja aonde for, o ranking das maiores torcidas de times de futebol do país, constatará que nenhum deles aponta o primeiro lugar como aquele ocupado por quem não torce para time nenhum. Vale lembrar aos comentadores digitais de plantão que o torcedor da seleção brasileira tem um perfil sócio-econômico-cultural particular e específico, quando comparado ao torcedor típico de times de futebol.
Você nunca verá um jogo da seleção com a torcida entoando um belo poropopó (só uma torcida faz isso com maestria e paixão) ou entoando cantos típicos de estádio de futebol com a adesão da maioria das pessoas. Isso jamais acontece, ainda que parte dos torcedores da seleção sejam também torcedores de times de futebol.
Logo, pode-se concluir que muitas questões ligadas ao perfil do público brasileiro, levando-se em conta seus múltiplos segmentos, bem como o público estrangeiro, devem ter sido levadas em conta pela NIKE quando da elaboração do uniforme da seleção brasileira. E sim, o fabricante de artigos esportivos pensa para além da torcida brasileira quando elabora os uniformes da seleção. Afinal, eles não são vendidos somente em território nacional. Não acredita? “Pergunta lá no posto…”
Aproveitando o ensejo, vale destacar a recente campanha de Doritos envolvendo o cabelo do Ronaldo Fenômeno na Copa do Mundo de 2002. Uma ação bem planejada em função da construção de uma história. Ousada por estarmos em tempos de IA em que tudo pode ser checado, ainda que com resultados equivocados.
Entretanto, ouso arriscar dizer que sua execução poderia ter sido mais acurada, levando-se em conta os meios em que foi difundida. O comportamento do consumidor é diferente em cada uma das redes sociais com o qual se depara e interage. Por se tratar de uma ação publicitária de caráter documental, acredito que a disponibilização dos filmes poderia ser mais variada e alinhada a cada uma das redes. A campanha é merecedora de um episódio do POLICAST.
Por fim, destaca-se o hype que vai durar até a convocação final do técnico italiano da seleção brasileira, ou seja, a ida (ou não) do camisa dez do time do Santos para a próxima copa. Esse assunto ainda vai gerar muitos comentários e análises que não vão levar a lugar nenhum. Afinal, quem decide essa questão é somente uma pessoa, aquela que acabou de renovar seu contrato como treinador do selecionado brasileiro até 2030. Caso vá, caso não vá, nunca saberemos as principais razões disso.
“Vai, Brasa!” vai colar, vai cair na boca do povo? Não faço previsões, como é sabido por quem tem coragem de ler essa coluna. Mas, há de se lembrar que isso vai depender muito mais do potencial mercadológico da NIKE, do que o fato das pessoas estarem, ou não, gostando desse jargão no momento. Em outras palavras, vai depender de quanto o fabricante do referido uniforme estará disposto a investir na divulgação e uso desse slogan.
Já ouvi muitas vezes da velha senhora, a genitora desse que vos escreve, a pergunta: “Quando você vai comprar seu “pois é”? Ou ainda: “Você precisa trocar o seu “pois é”. Todos os vernáculos que aparecem “entre aspas” nos parágrafos anteriores a esse são slogans ou jargões publicitários que se tornaram expressões do cotidiano de muitas pessoas por muito tempo. Isso aconteceu por conta de fatores intrínsecos a seu conteúdo criativo? Sim. Mas também pela intensidade com que foram repetidos para essas pessoas.
“Manda brasa!” já é uma expressão consolidada há tempos.
O mesmo pode acontecer com “Vai, Brasa!”, não?
“Tomou?”
Ricardo Poli é professor, palestrante, provocador, piadista e colunista da BRING ME DATA.
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As opiniões aqui contidas são de responsabilidade de seu autor e não refletem necessariamente a opinião da Bring Me Data.