O Morgan Stanley, em seu mais recente relatório divulgado, traz uma projeção ambiciosa para o mercado: a IA tem potencial para adicionar US$ 16 trilhões ao valor do S&P 500.
Para dimensionar essa cifra, estamos falando de aproximadamente R$ 80 trilhões — mais de quatro vezes o PIB anual do Brasil.
Os estrategistas do banco calculam que a IA pode gerar US$ 920 bilhões em benefícios líquidos anuais para as empresas do S&P 500, o equivalente a 28% dos lucros pré-impostos projetados para 2026. Essa transformação se divide em duas frentes principais:
A IA agentic — sistemas capazes de tomar decisões autônomas com menor supervisão humana — representa US$ 490 bilhões anuais desse potencial.
A aplicação dessa frente entra no escopo de softwares que não apenas processam informações, mas executam tarefas complexas, tomam decisões estratégicas e operam de forma independente.
E a IA incorporada, incluindo robôs humanoides e automação física, que contribuirá com outros US$ 430 bilhões anuais.
Essa é a inteligência artificial que se materializa: robôs trabalhando em armazéns, assistentes automatizados em hospitais, sistemas autônomos em fábricas.
Onde esse valor será criado
Segundo os analistas do banco, os ganhos se dividirão em duas frentes principais:
- IA Agentic — US$ 490 bilhões anuais
Refere-se a sistemas autônomos capazes de tomar decisões com mínima supervisão humana. Aqui entram softwares de análise estratégica, agentes virtuais que coordenam cadeias de suprimentos, plataformas financeiras que ajustam investimentos em tempo real e até gestores de risco operando de forma independente. Se hoje a IA é vista como um copiloto, a IA agentic é um piloto automático estratégico — e esse é o verdadeiro divisor de águas no conceito de produtividade.
- IA incorporada (física e robótica) — US$ 430 bilhões anuais
O segundo motor de valor vem da IA aplicada em máquinas e robôs humanoides. Imagine linhas de produção totalmente autônomas, hospitais com assistentes robotizados, fazendas operadas por drones inteligentes e armazéns logísticos onde robôs cooperam em tempo real. Essa dimensão “tangível” da IA promete uma revolução comparável à da eletrificação no século XIX.
Somadas, essas duas frentes entregam US$ 920 bilhões em benefícios líquidos anuais — o equivalente a 28% dos lucros pré-impostos projetados para o S&P 500 em 2026.
O dado mais sensível do relatório é a estimativa de que 90% dos empregos serão impactados de alguma forma pela automação.
É crucial entender o termo “impactados”: não significa que nove em cada dez trabalhadores serão demitidos, mas que praticamente todas as funções sofrerão algum grau de transformação estrutural.
Exemplos já observados:
- Administração: tarefas de planilhamento e conciliação já são automatizadas por softwares inteligentes.
- Jurídico: pesquisas jurídicas complexas realizadas em minutos por IAs treinadas em jurisprudência.
- Atendimento: chatbots avançados substituem parte do suporte humano em empresas globais.
- Finanças: algoritmos executam análises de crédito e projeções financeiras em tempo real.
Essa transição carrega um paradoxo: a IA elimina empregos de baixa complexidade, mas também cria novas funções altamente especializadas.
O Morgan Stanley cita papéis emergentes como analista de cadeia de suprimentos de IA e ético de IA. Em outras palavras, a disrupção não extingue o trabalho humano, mas o obriga a subir um degrau na sofisticação.
O banco alerta que o número de US$ 16 trilhões considera adoção total da IA em todos os setores — algo que levará muitos anos para se concretizar.
No entanto, alguns indicadores já mostram a aceleração:
- Vagas de emprego relacionadas à IA dobraram: de 0,8% para 1,6% do total global entre 2022 e 2023.
- Infraestrutura massiva: até 2028, empresas devem investir US$ 3 trilhões em chips, servidores e sistemas de IA.
- Velocidade de retorno: a expectativa é que esses investimentos tenham payback mais rápido que ciclos anteriores de inovação, como a transição para nuvem.
Ou seja: estamos diante de uma corrida global em que quem investir primeiro terá vantagem estrutural de longo prazo.
O impacto macroeconômico: um choque comparável à eletrificação
Economistas comparam a ascensão da IA a momentos históricos de ruptura, como a Revolução Industrial ou a massificação da eletricidade.
A diferença é a velocidade: enquanto a eletrificação levou décadas para se consolidar, a IA está se espalhando em ciclos de meses.
Isso explica por que bancos como Morgan Stanley estão ajustando modelos macroeconômicos. O aumento de produtividade proporcionado pela IA pode:
- Impulsionar PIBs nacionais em até 7% adicionais na próxima década.
- Ampliar margens corporativas, reduzindo custos de operação em setores intensivos em mão de obra.
- Redefinir mercados de capitais, valorizando empresas que dominam IA e penalizando as que ficarem para trás.
A frase que ecoa entre analistas é: “A IA será tão inevitável para empresas quanto a eletricidade foi para fábricas em 1900.”
Para investidores, a análise do Morgan Stanley traz uma mensagem direta: a IA não é apenas um setor, mas um vetor transversal a todas as indústrias.
Três linhas de investimento se destacam:
- Infraestrutura de IA
Fabricantes de semicondutores, servidores, data centers e nuvem. Empresas como Nvidia, AMD, TSMC e Microsoft Azure estão na linha de frente.
- Aplicações corporativas
Softwares empresariais que incorporam IA agentic — de ERPs a CRMs. Aqui, Salesforce, Oracle e startups de automação de processos despontam.
- Robótica e automação física
Companhias que produzem robôs para logística, saúde e manufatura. Um setor que, embora ainda incipiente, deve explodir até o fim da década.
O recorte brasileiro: oportunidade ou ameaça?
E como isso afeta a economia brasileira?
Bem, a aplicação de IA em agritech pode transformar cadeias produtivas e exportações, elevando competitividade global, porém, a falta de infraestrutura e qualificação pode ampliar a exclusão tecnológica.
Nossos bancos já testam IA para análise de crédito e gestão de riscos. Portanto, o desafio é acelerar a adoção para não perder competitividade frente a players globais.
Se bem direcionada, a IA pode adicionar centenas de bilhões de reais ao PIB brasileiro em menos de uma década. Mas sem políticas públicas, o país corre risco de ampliar seu “gap tecnológico” em relação a EUA, Europa e Ásia.
A década da inevitabilidade
O relatório do Morgan Stanley é, em essência, um chamado à ação para empresas, governos e investidores.
Para investidores, o recado é claro: IA é uma classe de ativos estratégica, comparável a energia e internet em seu impacto transversal.
Contudo, para empresas, a mensagem é urgente: quem não incorporar IA ficará estruturalmente defasado em produtividade, margens e inovação.
Para trabalhadores e governos, o alerta é social: sem políticas de capacitação e inclusão, a IA pode agravar desigualdades históricas.
Em resumo, a IA pode adicionar trilhões ao mercado de ações, mas o valor real só será capturado se empresas e sociedades conseguirem equilibrar eficiência, ética e inclusão.
O Morgan Stanley termina seu relatório com uma provocação que resume o espírito desta década:
“A IA não é uma escolha. É uma inevitabilidade. A questão não é se ela transformará a economia global, mas quem sairá vencedor desse processo”.