Toda marca sabe montar campanha para a vitória. O verdadeiro teste do marketing esportivo, porém, chega no apito final de uma derrota inesperada.
Quando a Noruega eliminou o Brasil por 2 a 1 nas oitavas da Copa, dezenas de patrocinadores que apostaram no sonho do hexa tiveram que virar a chave em tempo real, diante de milhões de torcedores frustrados. O que essas marcas fizeram, e o que travou, nos minutos seguintes ensina mais do que qualquer case de campanha vencedora.
Antes da bola rolar, o clima era de mobilização total. Patrocinadores da seleção e parceiros do torneio intensificaram ativações, apostaram em influenciadores e resgataram trilhas emocionais para surfar a audiência do mata-mata. Depois do gol norueguês, porém, boa parte desse esforço virou pó em segundos, e cada marca precisou decidir, sozinha, o que dizer para uma torcida de luto.
O marketing esportivo que só serve para a vitória é meia campanha
Aqui está a lição incômoda. Uma campanha desenhada apenas para o cenário do título é metade de uma campanha, porque grandes eventos esportivos entregam tanto euforia quanto frustração. Quem planeja só o roteiro feliz fica mudo quando o roteiro triste chega. E o roteiro triste chega com frequência.
A Rexona provou o contrário. Estreando como patrocinadora da Fifa, a marca da Unilever já tinha uma resposta emocional pronta antes mesmo do fim da partida, com o mote de que “nunca te abandona”. Logo após a eliminação, levou o conceito às redes com um vídeo de torcedores emocionados sob a bandeira “não foi dessa vez”. A aposta tinha tamanho: a Unilever havia destinado metade do orçamento anual da marca no Brasil à Copa, com investimento cerca de 10% acima do ano anterior. Preparar o consolo, portanto, estava no plano desde o início.
Dois manuais opostos de crise no mesmo minuto
O momento revelou dois playbooks completamente diferentes. De um lado, o Itaú, patrocinador da seleção há quase duas décadas, escolheu o apagamento. Em cerca de 40 minutos, o banco removeu mais de 500 publicações do Instagram e trocou a descrição do perfil para “No vazio feito você”. Durante o dia, a marca vinha resgatando a música “Mostra Tua Força Brasil”. À noite, preferiu o silêncio simbólico.
Do outro lado, a Vivo transformou o silêncio em mensagem. Algumas horas depois, a marca da Telefônica publicou um vídeo de seis segundos, fundo branco, logotipo em cinza, com a expressão “modo avião” e a legenda “por hoje, é isso, brasileiro Roxo”. Foi uma forma elegante de dizer que não havia clima para conversar, sem abandonar a identidade que a campanha “Brasileiro Roxo” vinha construindo, conceito que já somava 1,4 milhão de interações e 32,2 mil compartilhamentos.
A aposta de meio orçamento em um resultado que ninguém controla
Repare no risco embutido nesse tipo de operação. Marcas destinam fatias enormes de verba a um desfecho que depende de onze jogadores em campo, e não de nenhuma decisão de marketing. A Rexona colocou metade do orçamento anual em cima disso. Enquanto a seleção avançava, o investimento parecia genial. Quando ela caiu, o mesmo investimento virou uma corrida contra o relógio para não soar deslocado.
Os números das ativações ajudam a entender por que tanta gente entra nessa aposta. O iFood informou que sua campanha alcançou 185 milhões de pessoas, com mais de 350 publicações, boa parte produzida em tempo real. A Volkswagen declarou quase 300 milhões de impactos e mais de 700 mil interações. Ou seja, o prêmio pela audiência é real, tanto quanto o tombo quando o time perde antes da hora.
Por trás dos dois manuais, existe uma disciplina que separa as marcas preparadas das improvisadas: o planejamento de cenários. Quem entra em um grande evento com peças prontas para vitória, empate e derrota reage em minutos, enquanto quem aposta tudo em um único desfecho fica refém da sorte. A Rexona reagiu rápido porque já tinha o consolo engatilhado. Os que silenciaram, na maioria, foram pegos sem plano B, e a demora escancarou a falta de preparo diante das câmeras.
Marketing esportivo se decide no tempo real
A velocidade separou quem saiu bem de quem saiu mal. Enquanto Itaú, Vivo e Rexona ajustaram o tom nas primeiras horas, boa parte dos patrocinadores simplesmente ficou parada. Até o fim daquela noite, marcas como Brahma, Coca-Cola, Guaraná e Uber ainda não tinham tocado no assunto, e várias mantiveram no ar campanhas de incentivo mesmo depois da derrota já consumada.
Esse descompasso custa caro, porque a torcida percebe a diferença entre uma marca que sente o momento e uma que segue no piloto automático. Quando o comercial de “vamos, Brasil” continua rodando logo após a eliminação, a mensagem soa surda, quase insensível. Já a marca que muda de tom depressa demonstra que estava prestando atenção, e é essa percepção de presença que a torcida recompensa depois.
Continuar na Copa sem depender da seleção
Há ainda um segundo tempo comercial que muita gente ignora. A Copa segue com semifinais e final mesmo sem o Brasil, então o desafio das marcas passa a ser sustentar relevância sem o combustível do verde e amarelo. Algumas já pivotaram para o discurso da permanência: a Azul, patrocinadora da CBF, reforçou seguir “de braços abertos”, enquanto o Mercado Livre celebrou a paixão do torcedor “em cada vibração”.
O tamanho do prêmio em jogo explica a pressa. Antes da eliminação, uma pesquisa de intenção de compras da CNDL e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, estimava que cerca de 99,2 milhões de brasileiros movimentariam o comércio por causa da Copa, com 60% dos consumidores planejando comprar algum produto ou serviço no período. O ticket médio previsto girava em torno de R$ 619, chegando a R$ 784 entre as classes A e B. Com o Brasil fora, parte desse potencial continua de pé, porém migra da euforia do jogo para a conveniência da reta final.
O varejo sente esse ajuste na pele. Produtos amarrados à seleção, de camisetas a itens temáticos, perdem apelo de um dia para o outro, e quem estocou pesado precisa reposicionar a comunicação rápido, trocando “torcida pelo Brasil” por “reta final do Mundial”. Sempre que a narrativa depende de um único protagonista, a saída dele