O Brasil deve exportar, em 2026, o maior volume de soja da história: 113,6 milhões de toneladas, segundo a Abiove. A produção também está em máxima histórica. A safra 2025/26 projeta 177,85 milhões de toneladas. No primeiro trimestre, o país embarcou 23,46 milhões de toneladas, alta de 5,93% sobre 2025, segundo o IMEA.
Porém, nenhum desses números vai aparecer no resultado final do produtor. A Abiove revisou a receita projetada do complexo soja de US$ 58,17 bilhões para US$ 51,18 bilhões. A atualização saiu em 16 de abril.
Em outras palavras, o faturamento de 2026 vai ficar abaixo dos US$ 52,9 bilhões de 2025. O preço médio de exportação caiu de US$ 440 para US$ 370 por tonelada. O Brasil embarca mais e fatura menos.
O cenário já estava montado desde janeiro
Esse resultado vem de uma combinação visível desde o início do ano. Safra recorde no Brasil, estoques globais em nível histórico, real valorizado abaixo de R$ 5,00 em vários momentos de abril. A demanda chinesa também recuou. Em março, a China importou 9,97 milhões de toneladas, queda de 10,39% frente a 2025.
Por outro lado, há um sinal positivo no processamento interno. A Abiove projeta 62,2 milhões de toneladas, contra 61,5 milhões na estimativa anterior. Isso indica que o Brasil começa a capturar mais valor exportando farelo e óleo. Ainda assim, o movimento não compensa a pressão sobre a receita total.
Quando o mercado fecha, sobra a gestão de preço na soja
Com preço, câmbio, estoques e demanda apontando para baixo, não existe mecanismo de mercado que compense. O que existe é gestão, ou a ausência dela. A margem bruta média do sojicultor recuou de 78 para 64 sacas por hectare. Em paralelo, o custo de produção subiu 4% na safra 2025/26, segundo a CNA.
Os fertilizantes pesaram mais: alta de 10% no período. O arrendamento em dólar amplifica o impacto do câmbio sobre o orçamento da fazenda, principalmente no Mato Grosso. Por isso, o produtor que não travou o preço antecipadamente chega à colheita sem margem. Da mesma forma, quem esperou o mercado virar perde a janela.
O problema crônico do agro: produzir bem, vender mal
Esse descompasso, no entanto, não é novo. O agro brasileiro tem a maior produtividade agrícola tropical do mundo. Mesmo assim, enfrenta dificuldade crônica para converter volume em resultado. Parte vem da estrutura de mercado, da concentração de tradings e da dependência de poucos destinos.
Outra parte vem de operações sem gestão de preço estruturada. E gestão de preço é o conjunto mínimo de decisões que separa dois perfis de produtor. De um lado, quem travou parte da safra na CBOT quando o contrato estava favorável. Do outro, quem esperou, viu o câmbio cair e vendeu no mercado à vista para cobrir compromissos imediatos.
O setor já tinha o diagnóstico no começo do ano
O mercado deu o sinal logo no início de 2026. Analistas do setor convergiam para o mesmo diagnóstico. O resultado do produtor dependeria menos do comportamento do mercado e mais da qualidade das decisões internas. Ou seja, do timing de comercialização e do controle de custos.
Portanto, 2026 vai entrar para a estatística como o ano em que o Brasil exportou mais soja da história. Vai entrar também como o ano em que a receita ficou abaixo do anterior.
Esse gap entre volume e valor é o dado que o setor precisa ler com honestidade antes de comemorar. Produtividade agrícola é infraestrutura. Gestão de preço na soja é estratégia, e a parte que falta acontece na mesa de comercialização, antes da colheita.
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