Em 5 de maio de 2026, o Canva colocou no ar uma campanha que invadiu o feed brasileiro. Pela primeira vez em três décadas, o personagem Agostinho Carrara, vivido por Pedro Cardoso na série “A Grande Família”, voltou à publicidade.
Imagem: Reprodução Exame
O retorno aconteceu junto com o lançamento do Canva IA 2.0 no Brasil, num filme de quatro minutos exibido em horário nobre da Globo, no intervalo da novela das 19h, e também distribuído nos canais digitais. A operação carrega, no fundo, uma das aplicações mais bem calibradas de nostalgia no marketing que se viu no país recentemente.
Não foi um chamariz emocional avulso. Foi tese estratégica vestida de afeto.
A leitura rápida pode reduzir essa campanha à sacada de trazer um personagem icônico de volta. Não é. O que o Canva fez aqui é diferente. Combinou personagem específico, desenvolvimento narrativo coerente, mensagem de produto bem ancorada e estratégia de mídia híbrida (TV aberta + digital), tudo sustentado por uma leitura precisa de quem é o consumidor que de fato precisa do produto.
Cada decisão tem propósito comercial bem visível.
A tese que sustenta a escolha do personagem
Agostinho Carrara não é qualquer personagem. Arquétipo cultural brasileiro consolidado. Taxista de Alcântara, sempre cheio de planos para enriquecer rápido, fazendo malabarismo com várias ideias ao mesmo tempo, geralmente sem estrutura para executar nenhuma.
Esse perfil narrativo conecta diretamente com o que o Canva precisa comunicar: gente cheia de ideia, com pouca estrutura técnica para transformar essas ideias em ativos de marca.
Conforme declaração oficial de Bruno Sabino, diretor criativo do Canva no Brasil, divulgada à imprensa, a campanha foi construída a partir da pergunta de como Agostinho existiria nos dias modernos, como ele usaria IA. Logo, o personagem não foi forçado a vestir um produto. Foi atualizado dentro do próprio universo dele.
Vira coach, influenciador, trader, e usa o Canva IA 2.0 como ferramenta para finalmente dar forma ao próximo grande negócio dele, a Carrara Modas.
Esse alinhamento entre arquétipo e produto é o que separa boa campanha de nostalgia de campanha apenas saudosista. Trazer alguém famoso sem narrativa coerente entrega só atenção. Trazer alguém famoso com narrativa que dialoga com o que o produto resolve entrega atenção e percepção de valor.
O público da campanha não é quem você pensa
Aqui está o ponto mais importante para profissionais de marketing entenderem. O público-alvo da campanha não é o designer experiente, o publicitário, o profissional já habituado a ferramentas de criação.
O público-alvo é o pequeno e médio empresário brasileiro, o empreendedor independente, a pessoa com ideia de negócio na cabeça mas sem repertório para construir identidade visual, presença digital, materiais publicitários e arquitetura de marca.
Conforme afirmou Alberto Ceresa, country manager do Canva no Brasil, em comunicação oficial divulgada com a campanha, o foco está em garantir que “a falta de expertise em design não seja mais um obstáculo para quem quer crescer”. Portanto, o filme não vende ferramenta para profissional. Vende possibilidade para amador.
Por isso Agostinho Carrara funciona tão bem. Ele representa o sonhador eterno que sempre teve mais visão do que execução.
Conforme dados oficiais do Canva, 1 em cada 9 internautas no Brasil já usa a plataforma mensalmente, e quase 200 milhões de vídeos foram criados por usuários brasileiros até hoje. O Brasil é o segundo maior mercado da empresa no mundo, o que justifica a estruturação recente de uma operação local com liderança dedicada.
Logo, a campanha tem ambição comercial real, não é apenas branding global traduzido.
O filme como demonstração de produto, não apenas manifesto
Outro acerto da campanha está na execução do filme. Em vez de vender o Canva IA 2.0 com discurso técnico ou benefícios genéricos, o roteiro mostra a transformação acontecendo na tela.
Agostinho rabisca um desenho rudimentar. Em seguida, esse rabisco vira identidade visual completa. Cartões, catálogo impresso, carimbo, site, perfil em rede social, peças de mídia exterior. A jornada do conceito ao ativo finalizado é mostrada visualmente, não explicada por voice over.
Esse é o tipo de execução que economiza orçamento de mídia. Quando o consumidor entende o produto assistindo, em vez de precisar do tradicional pacote longo de explicação, a barreira cognitiva cai. A taxa de conversão do filme em download ou cadastro tende a subir, especialmente entre público que ainda não conhecia o Canva ou o conhecia só superficialmente.
A própria empresa, conforme comunicação oficial, disponibilizou templates baseados no universo do personagem dentro da plataforma, criando uma ponte direta entre a campanha publicitária e o uso prático da ferramenta. Quem assistiu ao filme e quis testar não enfrentou a típica fricção entre “ver a propaganda” e “achar onde isso aparece no produto”.
A escolha de mídia também merece análise atenta. A campanha não optou pelo caminho fácil de só circular em digital. Estreou às 10h nos canais digitais e também ganhou espaço em horário nobre da Globo, no intervalo da novela das 19h e entre novela e telejornal noturno.
Essa é calibragem. O público que o Canva quer atingir, o pequeno e médio empreendedor brasileiro, especialmente em cidades médias e pequenas, ainda consome muita TV aberta. Restringir a campanha apenas ao digital deixaria de fora boa parte desse contingente.
Por outro lado, não estar presente no digital deixaria de fora o público mais jovem e digitalmente nativo, que toma decisão de adoção de software muito rápido. Combinar os dois é cobrir o espectro inteiro de quem pode virar usuário ativo.
Esse posicionamento sucede outras campanhas brasileiras do Canva com Xuxa, Érick Jacquin e Gracyanne Barbosa. Cada uma delas mirou um nicho cultural específico do consumidor nacional, sem tentar ser genérica para todos ao mesmo tempo. Portanto, o que está acontecendo no Brasil é uma estratégia coordenada de localização cultural, não campanhas isoladas.
O que marcas brasileiras devem tirar disso
Quatro aprendizados práticos saltam dessa campanha. Primeiro, nostalgia funciona quando há alinhamento entre arquétipo do personagem e problema que o produto resolve. Trazer ícone do passado sem essa coerência só queima budget. Trazer ícone com encaixe narrativo abre conversão real.
Segundo, o público da campanha precisa ser definido com precisão antes de qualquer decisão criativa. Quem o Canva atinge com Agostinho não é o mesmo público que atinge com Xuxa ou Gracyanne. Cada figura cultural carrega audiência distinta, e tratar essas audiências como uma só é desperdício.
Terceiro, mostrar o produto em ação supera explicar o produto verbalmente. Em campanhas de software ou tecnologia, especialmente, demonstrar a transformação visualmente reduz ciclo de aprendizado e aumenta intenção de uso. Marcas que continuam apostando em manifestos longos sem demonstração estão atrasadas em relação a essa lógica.
Quarto, distribuição híbrida em TV aberta e digital ainda é estratégia válida no Brasil. Marcas que abandonaram TV completamente em nome de “ser digital first” perderam alcance em segmentos relevantes de PME, especialmente em mercados regionais.
O Canva entendeu isso e calibrou. Quantas marcas brasileiras hoje escolhem celebridade pela popularidade absoluta, sem perguntar se ela representa o arquétipo cultural específico que o produto precisa traduzir?
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