Luto é a reação emocional a uma perda significativa, imediatamente relacionada à morte de uma pessoa querida. Ao longo do tempo, luto também conquistou espaço para designar estados mais amplos de tristeza, como uma demissão inesperada, o fim de um relacionamento amoroso, o fracasso de um projeto importante ou qualquer outra notícia tremendamente desestabilizadora.
A esse menu variado, no mundo dos negócios, podemos acrescentar o luto pela perda de uma marca venerada. Quando uma organização encerra as atividades ou é adquirida por outro grupo, é provável que produtos, serviços e marcas outrora relevantes sejam descontinuados, deixando um batalhão de “órfãos”. Isso também acontece em uma empresa que faz faxinas periódicas em portfólios de produtos e marcas.
De um dia para outro, clientes leais perdem suas marcas de devoção. Hábitos cultivados por décadas, prazeres nutridos por uma vida e confianças depositadas por anos desmoronam. De quais produtos você sente saudade? Para quais lugares amaria retornar? Que marcas fazem falta na sua vida? Eu morro de saudades de muitas coisas…
Os sorvetes da marca Gelato da minha infância são inesquecíveis. Que tal entrar em uma máquina do tempo para tomar novamente um Cornetto, o original, o Puxa — lembra daquele sorvete que vinha em uma “casquinha” plástica com dois chicletes no fundo? —, o Tubarão, talvez o primeiro sorvete azul, e o Morcego Vermelho, picolé vermelho e preto que manchava a língua, em homenagem ao esquecido herói da Disney?
Na minha lista, registro saudosamente o Parque PlayCenter, em São Paulo, marcas de roupas como The Philippines e Pakalolo, os lanchinhos Mirabel, wafer da antiga empresa campineira Triunfo, a bebida láctea Glut, em sua criativa embalagem tetraédrica, e casas da noite paulistana como Rose Bom Bom, Dama Xoc e Aeroanta…
Voávamos de Varig, Vasp e Transbrasil, comprávamos nas lojas do Mappin, Mesbla e Arapuã, ouvíamos música em um som Gradiente, Sharp ou Semp Toshiba, depositávamos nosso suado dinheirinho no Banco Real, Nacional ou Bamerindus e, certo dia, essas empresas e marcas morreram de “susto, bala ou vício”, deixando consumidores enlutados.
Acho que dá para montar uma associação de Brand Lovers Enlutados, com encontros anuais, palestras de ex-executivos de marcas extintas, mostra de cinema publicitário com os antigos e icônicos comerciais, como “Passeata da Staroup” ou “Que novidade é essa?”, da US Top, feira de coleção de produtos antigos — posso levar talões do Banco Real, uma garrafa de refrigerante Gini, meu primeiro Gradiente… —, abaixo-assinado para pressionar empresas a trazerem de volta produtos — voto no sorvete Quindim, da Yopa, hoje Nestlé —, reviver por uma noite um programa de rádio ou TV ou uma casa noturna. Tendência vintage na veia!
Já escrevi, em outro artigo desta coluna, sobre o desperdício de energia e dinheiro quando corporações gigantescas escolhem comprar outras empresas e decidem eliminar a antiga marca poderosa ou deixá-la à míngua, sangrando lentamente em praça pública. O mundo não é mais dos Nets, a melhor distância entre dois pontos não é mais com a Vasp, o Real não é mais o banco da nossa vida.
Nestes dias, me tornarei órfão outra vez. Vou perder uma companheira de mais de 35 anos. O Grupo Estado anunciou que a Rádio Eldorado encerrará suas atividades no mês de maio, provocando doloroso luto na multidão de “melhores ouvintes”.
Por 68 anos, a Eldorado se destacou como uma rádio diferenciada, prezando por um super selo de qualidade, com programas incríveis como A Hora da Vitrola, Fim de Tarde Eldorado, Jornal Eldorado, Som a Pino, Chocolate Quente, Trip FM e tantos outros.
A justificativa do Grupo Estado segue naquela esperada direção das transformações profundas nos hábitos dos ouvintes e das dificuldades financeiras do negócio radiofônico, mas vi muitos argumentos contrários, contestando esse panorama com dados e casos.
Nas redes sociais, em espaços culturais, programas e ruas, vi uma movimentação bonita e esperançosa das pessoas, buscando alternativas para manter a Rádio Eldorado no ar. Passeata na Paulista, proposta de tombamento cultural, transmissão no Largo da Casa de Francisca e muitos conteúdos pela internet. Como seria bom se tanta gente se mobilizasse por nossas empresas e marcas como estão fazendo pela Eldorado…
Seria maravilhosa uma volta atrás na decisão dos executivos do Grupo Estado, com essa oportunidade ímpar de reimpulsionar uma das rádios brasileiras mais notáveis. Se não for pela ação dos atuais acionistas, por que não sonhar com outra saída?
Meu filho perguntou: “Pai, por que algum milionário não compra a estação? Adiciona o nome da marca, como fazem nos estádios, destaca a empresa nos intervalos e salva a emissora. Nos EUA, há montes de bilionários que doam valores para universidades e fundações artísticas. Aqui não poderia acontecer o mesmo?”
Meu filho tem razão. Será que não há grandes empresários brasileiros que amam a Rádio Eldorado? Não haveria bilionários melhores ouvintes? Não queremos que rasguem dinheiro! Rádio é negócio sustentável. Se o Nubank ressuscita o Cine Copan e batiza o Nubank Parque do Palmeiras, se o Cine Belas Artes segue vivo por muitas mobilizações e apoios, se o Itaú Unibanco já apoiou tantos projetos culturais, por que não sonhar com um novo futuro para a Rádio Eldorado?
Se eu fosse bilionário ou dirigisse uma grande empresa, juro que comprava… mantendo ativa e inspirada aquela turma de profissionais incríveis, a programação de músicas não óbvias do mundo todo, os projetos originais e criativos, o fluxo de informação de primeira linha, a promoção incessante da cultura e a legião impressionante de brand lovers.
Neste mês, milhares de ouvintes ficarão órfãos, entrando em terrível luto sonoro. Vai ser difícil substituir a Eldorado. Vai nos restar um baita silêncio. “Melhor do que o silêncio, só João”, cantaria Caetano. E eu diria: ainda melhor que João, a Rádio Eldorado!
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